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LEVE-ME AO SEU LÍDER
Há 30 anos as coisas eram bem diferentes do que são hoje... E acho que “a ficha caiu” para mim recentemente. É claro que estou falando de cinema, e o que eu finalmente percebi é que alguns cineastas, por causa da indústria, acabam perdendo seu brilho com o tempo. Na verdade eu já sabia, mas é que com a última decepção eu fiquei ainda mais desanimado.
Eu pensava que a geração de grandes cineastas americanos dos anos 70 estava perdendo o talento, mas não é esse o motivo único e forte o bastante para essa queda. Na verdade a indústria é que está formando novos padrões a partir dos moldes desses diretores. Naquela década, nos deparávamos com idéias, tanto narrativas quanto técnicas, inovadoras. Coppola firmava os moldes dos novos épicos, Lucas ditava os novos padrões tecnológicos, Spielberg formulava um gênero novo sobre problemas comuns com situações extraordinárias, Scorsese inventou uma espécie de neo-neo-realismo americano, recheado com anti-heróis. A quebra com os padrões de Hollywood da época foi feita. Estes cineastas tornaram-se heróis de uma geração que não seguiria mais o modelo criado. Simples ilusão. Acabaram criando um novo modelo.
Este rendia (e muito) dinheiro. Além disso, vários outros mercados foram abertos com esses sucessos dos anos 70, como o merchandising e o tie-in com outras mídias e indústrias. Ora, se dinheiro deu, Hollywood gostar!
O padrão de publicidade, história e distribuição foi criado. Os filmes do “verão americano” são todos vendidos nessa época e desse modo por causa dos blockbusters “Tubarão” e “Guerra nas Estrelas” que bateram todo tipo de record de bilheteria imaginável. Hollywood viu ser criado o cinema-pipoca e o mundo caía de joelhos por ele.
Através dos anos, vimos “imitações” surgirem desses cineastas revolucionários. No caso do Spielberg por exemplo, podemos citar inúmeros outros diretores que tiveram a vontade de juntar o comum com o extraordinário: Joe Dante; Joe Johnston; Tobe Hooper e, mais recentemente, Roland Emmerich e M.Night Shyamalan. Alguns desses filmes viraram até caricatura dos filmes mais famosos do Spielberg. Há sempre o drama intra-familiar, o final feliz e meloso (por vezes até surpreendente), o vilão implacável, a cena de susto e o herói falho, mas com virtudes o suficiente para ter a simpatia do público. A maioria dessas características estão presentes em trabalhos desses cineastas. Alguns conseguem se dar bem, mas a maioria deixa a desejar, fazendo apenas uma imitação barata.
Esse discurso todo foi para tentar defender minha decepção com o último filme de Steven Spielberg. “Guerra dos Mundos” não é um mau filme, mas não passa de um filme qualquer cuspido pela máquina de Hollywood. E sinceramente, eu esperava algo mais do diretor de “Tubarão”. Até o começo dos anos 90, Spielberg ainda conseguia fazer coisas que tinham algo a mais que os outros filmes americanos. Os filmes que ele fazia continuavam servindo de molde para a indústria. Seus adventos tecnológicos assombraram o mundo com “Parque dos Dinossauros”. Eu cresci no meio dessa revolução. Pequena, se comparada com a dos anos 70, mas mesmo assim, eu ia ao cinema com certo estado de espírito quando ia ver algum filme, e com outro estado completamente diferente quando o filme era do Spielberg. Parece que depois de ganhar o primeiro Oscar, ele começou a desandar. Agora ele não está mais no topo da revolução. Não dita mais as regras. Virou um diretor americano qualquer. Fazendo filmes quaisquer.
“Guerra dos Mundos” tem seus pontos fortes. Os efeitos são muito bons. Dakota Fanning é uma atriz e tanto. Algumas tomadas longas são de cair o queixo (o primeiro ataque e a discussão dentro do carro são feitas com longos takes -- quem não se impressiona com longos takes?) Mas todo o resto é falho. A começar com a escolha de Tom Cruise no papel principal. Só de saber disso, você já pode imaginar que vai ter um final feliz bem meloso, porque não há força alguma no universo capaz de matar um personagem principal interpretado por (enche a boca pra falar) TOOOOM CRUUUUISE! Cadê o Spielberg que recrutava elencos desconhecidos, para que os espectadores não tivessem a mínima idéia de quem sobreviveria ou não?
Outra é a fórmula batida (pela própria Hollywood) da invasão alienígena. Com todo respeito pela obra de H.G. Wells, que já deu o que falar em seu tempo, mas quantas vezes já vimos a mesma história? Sinceramente, “Guerra dos Mundos” não merecia ter um remake. O inconsciente popular já conhece a narrativa. Senão a de H.G. Wells, alguma imitação como o sofrível “Independence Day”.
Quando um filme de um de seus “discípulos” consegue contar melhor (quase) a mesma história, ter personagens mais reais e carismáticos e ser emocionalmente mais recompensador, isso quer dizer alguma coisa. “Sinais” de M.Night Shyamalan, que, ironicamente, segue uma linha parecida com a que o Spielberg abraçou há tantos anos, é mais recompensador que qualquer situação de “Guerra dos Mundos”. O ponto de vista de uma família problemática, mas que passa por cima dos problemas na hora do aperto funcionou muito bem e deu nova roupagem ao tema. Spielberg nessa vez, não foi o pioneiro e nem saiu ganhando no final.
Nem mesmo John Williams, cuja música é notória por elevar qualquer filme, salvou esse. Trilha completamente esquecível. E nem me fale no reencontro da família no final... Por algum motivo os marcianos resolveram deixar Boston intacta...
No final, a impressão que o filme me deixou é que a indústria já bateu tanto nas características dos filmes de Spielberg que até mesmo as idéias dele parecem usadas e clichê. Precisamos urgentemente de uma outra geração de cineastas que quebre com esses estabelecimentos e nos traga a próxima leva de clássicos e filmes inesquecíveis, porque parece que Spielberg e Cia já foram usados e imitados até o bagaço... Há 30 anos as coisas eram bem diferentes do que são hoje...
Escrito por Augusto às 22h07
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